Fundo do mar no sertão

ANO 116 Nº 111 - PORTO ALEGRE, QUARTA-FEIRA, 19 DE JANEIRO DE 2011

Lajedo: fundo do mar no sertão

Formação rochosa e calcárea com fendas profundas e grutas é motivo de estudo por cientistas
Crédito: Gilberto sander Müller / ESPECIAL / CP
Em Rio Grande do Norte, em pleno sertão, próximo à divisa com o Ceará, numa área estimada de 10 hectares, no município de Apodi, está localizado o Lajedo de Solenidade, um solo rochoso, composto por grutas, fendas profundas, cavernas e, o mais surpreendente, por pinturas ou gravuras que, conforme estudos científicos, remontam a milhões de anos. Aquilo tudo, distante 100 quilômetros do mar e 76 de Mossoró, a mais importante cidade econômica e cultural do RN, já foi o fundo do mar.

Tido como um dos maiores sítios arqueológicos do Brasil e, nos dias atuais, com parte da área cercada e com visitação acompanhada por guias, o local só foi salvo da destruição a partir da sensibilidade de uma professora, Maria Aparecida Silva Maia, a Dodora. Ela chegou ao local e viu aquela riqueza imensa, já sendo desmanchada, virando cal. Não considerou correto, foi quando leu trabalhos de pesquisas contido num livro de autoria do padre Pedro, escrito no século XVI. Leu também obras do professor Vingt-un Rosado (Vinte e Um Rosado, tradicional família de Mossoró e imediações. Os Rosados, todos com nomes franceses, são nomes de ruas, teatros, salas culturais na Grande Mossoró). Diante das informações, concluiu que estava diante de algo grandioso. A partir daí, ela começou uma luta que envolveu a gurizada, na escola. Foi perseguida pelos poderosos, pois uma empresa estava, na época, transformando o lajedo em cal para a construção civil.

Cláudio José Alves de Sena, uma das crianças que começaram com Dodora, é um dos atuais guias nas visitações ao Lajedo. Ele brincava na área, nos dias de chuva nas águas cristalinas e conhecia os Letreiros de Soledade, que hoje são mostrados com reverência aos visitantes. A maioria desses são estudantes e estrangeiros que se interessam pelo tema arqueologia. Sena destaca alguns grupos levados por empresas de turismo, como a CVC.

A Petrobras, presente em toda a área da Grande Mossoró, com muitos poços de petróleo em terra e também ali em Apodi, entrou na "onda" e foi responsável pelos recursos destinados às pesquisas, cercamento de parte da área e construção do pequeno, porém importante Museu. Entre os executivos da Petrobras que atuaram até meados do ano passado em favro do Lajedo foi Eduardo Bagnoli, falecido em outubro de 2010. Mas outros, como os geólogos Paulo Tadeu de Sousa e Geraldo Gusso, também da Petrobras, foram decisivos na preservação do local. Foi criada a Fundação dos Amigos do Lajedo de Soledade (Fals), e pesquisadores da Universidade Federal do RN também atuam ali. Três áreas estão demarcadas. A primeira é Urubu, por ter formações rochosas escuras, pontiagudas e várias cavernas. A segunda é Araras, por ter gravuras muito parecidas com essa ave, nas áreas abertas pela força das águas no decorrer dos séculos. A terceira é Olho D''água, por ter aflorado em várias partes esses olhos (isso em tempo de chuvas, o que é raro na região). Nas três foram e são encontrados ossos calcificados de animais que viveram há mais de 90 milhões de anos. O museu mostra tudo isso. Informações no www.lajedodesoledade.org.br.